terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Papo de bar



        - Se os poemas vivessem na calçada, seria bem mais fácil...
        Ele disse isso entornando seu quarto caneco de cerveja. As luzes amareladas deixavam o seu sorriso bizarro. Restos de calabresa luziam daqui e dali... Deixavam-no até que muito sincero. Não recomendável em determinadas ocasiões. Ficávamos alguns momentos sem assunto. Mas nas vezes que desenrolava, íamos até altas horas da madrugada a vociferar teorias sonhadas em delírio, álcool, e maconha...
        - Eles nos chamam de vagabundos!  Maconheiro eu até aceito, de boa. Mas eu trabalho e estudo sabe? Não é bem assim.
        Já não sabia articular suas ideias como no início da noite, mas estávamos num lance quase telepático. Entre anedotas sobre a festa anterior e pensamentos idiotas trocávamos alguma coisa de realmente construtivo, ou não.
        - Trabalho de base! Trabalho de base!... eu repetia soluçando...
        - Eu sei... Tem que ser geral... dizia ele...
        - Agora eu vou dizer uma coisa.... Você está pronto para morrer??
        - Ora... no fundo todo mundo tem medo de morrer... até os chamados "bela morte" por ae...
        - Os vagabundos que eles chamam... Quem nos chama assim mesmo? São alguns poucos, não é?
        - Não, eles são muitos, por toda a parte, você olha para o lado e acha alguns. Ainda mais se for gente da família.
        - Muitos ou poucos suas caixas de som são muito mais efetivas que a nossa voz abafada de choro... Eles têm aqueles caras engravatados, bem penteados e maquiados, em excelente resolução, e som surround, alguns até em 3D, live stream, HD, full não sei o quê e essa porra toda. Cara! Eles têm tudo que se precisa! É só querer e pronto! Caíram todos em suas lábias sinceras, seus olhares confiantes, e suas vozes remasterizadas!
        E depois, meu caro, o que acontece depois!?! Lindos e deslumbrantes comercias de cerveja e suas mulheres gostosas! E depois? Mais lindos e pitorescos comerciais de carro! Também com suas mulheres lindas... Mas elas têm um diferencial das geladas! Elas têm certo estilo que só um homem com um carro daqueles conseguem ter! Afinal, muitos podem comprar cerveja, mas carros, ah... nem tanto...  você sabe...
        No ar, tenta catar uma moscam que se aproximava de seu novo copo cheio...    Dá uns ou cinco goles profundos e continua...
        - É assim que eles fazem, meu... Pegam o seu sonho e colocam a favor deles, quando não dizem o que você deve sonhar... sim, sim... eles têm gente pra isso... Eles estão fazendo isso como um emprego comum em que pensam estar ganhando o seu pão honestamente... Você sabe, nessa merda toda estamos todos uns em cima dos outros e muitos não percebem que sua alegria pode ser o suor do outro...
         Está tudo bem atado, para que ninguém se mexa... e tão bem atado, mas tão atado, que ninguém percebe que está preso a esse tecido grosso... envelhecido e fortalecido por nossos sonhos abandonados. Isso é que é um bom nó, não? Como eu disse... eles têm gente pra isso, pessoas formadas em boas faculdades... Com grande conhecimento das técnicas, truques e manhas pra fisgar seu cérebro direto para um freezer lotado de geladas... Nós bebemos, não é mesmo? E não é pouco... mas é um vício, eu admito, e vícios são ruins.... os vícios do homem, acho que é isso o que move toda essa merda.... bom, acho que estou simplificando demais, talvez um pouquinho... Quem sabe? Nós!? Nossos amados deuses!? Nossos homens engravatados da TV?
        Mais uns goles. Um arroto.
        - É isso! É isso! Todos pensam que os homens da tv têm razão! Todos acham que falam verdades! Quando são só desculpas para vender o que passam nas tantas mil horas de comercial...
Novela pra vender antidepressivo...
Fórmula um para vender carros...
Desenhos para vender brinquedos... (pobres desenhos...)
Mulheres para vender cerveja...
Cerveja e carros para que se pague mais multas...
Mais multas, mais policias na rua, multando mais, em mais pontos da cidade... Protegendo o produto que a televisão vende e assim vai indo até foder tudo de vez! De vez! Desta vez, não teremos vez...
                O atendente nos lança um olhar do cão e diz que vai fechar a bodega.

Um comentário:

Maurício Santos disse...

Ótimo texto, bom mesmo. Parabéns!