Posso sentir várias coisas ao mesmo tempo, o caminho do nosso coração é coberto de sombras, precisamos ouvir as vozes que nos parecem inúteis. Precisamos encher as orelhas e os olhos de todos nós com sonhos, com coisas de sonhos. Precisamos alimentar o desejo e esticar os cantos da alma como um lençol sem fim. Se querem que o mundo vá adiante devemos nos dar as mãos. Precisamos mesclar os ditos saudáveis com os ditos doentes. Vocês sãos! O que significa sua saúde? Os olhos da humanidade miram o abismo no qual estamos todos mergulhando. A liberdade é inútil se você não tem coragem de olhar em nossos olhos, de comer conosco e de beber conosco. São os ditos sãos que levaram o mundo a beira da catástrofe. Homens escutem! Grandes coisas acabam, só as pequenas permanecem. Basta observar a natureza para se ver que a vida é simples. Precisamos voltar ao ponto onde tomamos o caminho errado. Precisamos voltar ao fundamento da vida sem sujar a água. Que tipo de mundo é este se é um louco que lhes diz que devem envergonhar-se?! Ó mãe! O ar é aquela coisa que se move em torno da cabeça e se torna mais claro quando você ri.
Dito por um Louco. Trechos retirados de "Nostalgia", filme de Tarkovski, escrita livremente adaptada.
Permaneço durmnindo, sonhando. Estou imóvel, naturalmente, mas as janelas da alma deixam passar sem querer um sonho inventado. Nesse sonho dizem-me para que eu continue nele. Ouço algo como "voltamos após os comerciais", "não perca as atrações...", ou um "Boa noite" respeitoso, pronunciado com som remasterizado por um gentle-men muito bem vestido e com um ar de ser muito confiável.
Continuamos na mesma. Cada vez mais as pessoas tem medo de pessoas. Mais o sensacionalismo da mídia amedronta e enche os ouvidos com informações inúteis que só fazem confundir, para poder explicar, depois do próximo comercial. Mais a ignorância induzida fará os hospitais lucrarem. Quanto mais doenças, maior o mercado. Mais uma vez o povo pagará o pato, pois adivinhem; os medicamentos são de uma empresa privada, patente fechada, como manda a cartilha. Quem pagará o valor são os governos, que são mantidos com o dinheiro de quem não decide nada (sim, nós), a não ser para qual palhaço será destinado um voto, entre um pouco menos de 186.690.583 votos, que, em sua maioria vão atender àquele que conseguir compor a musiquinha eleitoral que mais tempo conseguir retumbar em suas cabeças.
Os momentos ruins por quais passaram a nossa existência na Terra ao menos serviram para refletir, de consolo; para reforçar a idéia de que estávamos fazendo merda mesmo. Pena essa memória não se manter sempre. Enquanto nos lamentamos, eles redescobrem a cura para todo o mal: pague bem.
Difícil é ficar famoso por aqui. O pessoal faz de tudo. Literalmente tem que rebolar. Se tiver o “talento” necessário para isso, basta adotar um nome de fruta e arranjar um bom contato que a coloque nos interessantíssimos programas de sábado à tarde na televisão aberta. A lente olho de peixe e o ângulo já consagrado em baixo das saias realçarão o “potencial artístico” que uma fotografia menos intimista poderia esconder.
E que importância tem esse “bom contato”; alguém que saiba o telefone de alguém, que conheça um, que trabalha em tal lugar, que é amigo de outro, que pode tentar chegar o mais perto possível do ser iluminado que vai conceder a fama tão cobiçada para o até então desconhecido. Depois do demorado processo, tem-se cerca de um mês para elaborar um espetáculo de 30 segundos. O horário é “nobre”, claro, por isso; escasso. Caso trate-se de literatura ou música, o procedimento é diferente: o apresentador balofo do programa dedicará cerca de meio segundo, ou quem sabe até segundo inteiro divulgando sua obra, juntamente com mais 33 sucessos da nova ordem artística. Para os desesperados que esgotaram todas as possibilidades de estrelato nesse horário, a esperança agora pode ser depositada nos herdeiros dos famosos frustrados: com uma câmera amadora, grava-se seu filho, de óculos escuros, trocando a mamadeira pelo microfone, ou simplesmente chutando o saco de seu pai enquanto treina para ser o novo fenômeno do futebol.
Porém, para os que levam a sério a máxima de que o brasileiro nunca desiste, ainda resta a heróica opção. Mas ela é tão difícil de acontecer, tão difícil, que só pode ter a predestinação ao estrelato como explicação aceitável. A questão é estar, como todo bom início de carreira, no lugar certo e na hora certa. Em outras palavras, no avião certo e na hora final. A passagem sem volta é somente para os sortudos que com o fim de suas vidas alcançarão a glória da reportagem de última hora, do especial no horário nobre, da comoção nacional. Os segredos por trás do desastre tomarão conta das discussões de esquina, das revistas de fofoca, dos comentários oportunos da falta de assunto. Enfim, findados todos os ganchos para os próximos capítulos do drama, aí destacando-se a caça a caixa preta, o quebra cabeça encantador desenvolvido e publicado pelos especialistas em computação gráfica a cada pedaço encontrado, assim como posteriores filmagens de enterros simbólicos; tudo será reunido e reconstruído cenograficamente, nos mínimos detalhes, para homenagear e confortar as famílias das mais novas celebridades garimpadas por nossa atenta mídia. Eis a fórmula certeira da fama.
Que encrenca arrumei! Resolvi abrir um blog. Você sabe, essas páginas na internet que as pessoas usam para ficarem famosas, entre outras coisas, como transcrever suas vidas em formato html, resmungar publicamente sobre o que convir, expressar suas opiniões, derramar seus desabafos, alegrias, angústias, expectativas, enfim, o que der na telha, como me aconselhou uma amiga, depois que pedi umas dicas de como usar essa modernidade.
Tamanha é minha inspiração nos últimos tempos que o blog está aberto há uns dois meses, no mínimo, e até este post; nada. O problema também reside no infortúnio que é ter idéias em momentos inoportunos. Porém, infelizmente tenho de confessar que são neles que maisocorrem essas idéias, pensamentos que ficariam melhor escritos do que mal talhados na minha memória que é altamente seletiva, e que teima em selecionar as coisas erradas.
Primeiramente, gostaria de tentar explicar o porquê desse blog, e , ao mesmo tempo tentar dar uma significância a mais a ele, já que o fiz, a princípio, com a intenção de exercitar a minha escrita. Sinto que tenho muitas idéias que considero boas para textos -algumas nem perto disso chegam- mas nunca ou muito pouco as ponho para fora. De tanto acúmulo, meu médico interior, aquele que todos têm, e que geralmente nunca está de acordo pleno com o diplomado, dizia que eu precisava de uma válvula de escape. Então, depois de ver algumas coisas não muito interessantes por esse mundo virtual, pensei; por que não? Resolvi abrir a janela e começar a falar, seja lá o que sair, para que o vento carregue tudo isso para algum lugar, seja lá onde for.